terça-feira, 18 de julho de 2017

386. A Morte de Sócrates


Sócrates viveu na época de Péricles, século V AEC. Segundo Shelley, citado por Will Durant, “o período entre o nascimento de Péricles e a morte de Aristóteles... é sem dúvida o mais notável da história do mundo, seja ele considerado separadamente, em si, ou em relação aos efeitos que produziu nos destinos subsequentes do homem civilizado.”

Atenas, nessa época, era a mais importante cidade do mundo, cuja riqueza baseava-se, sobretudo, no comércio do maior entreposto então existente no mundo. Atenas centralizava o comércio mundial. Will Durant, a respeito desse comércio, cita Isócrates: “Os artigos fabricados em todo o mundo e difíceis de se encontrar aqui e ali, podemos adquiri–los facilmente em Atenas.” Atenas exportava vinho, óleo de oliva, prata, lã, mármore, cerâmica, armas, artigos de luxo, livros e obras de arte e importava frutas, queijos, nozes, peixe, cobre, estanho, ferro, bronze, ouro, madeira, bordados, fibra de linho , tintas, especiarias, espadas, vidro, telhas, leitos, botas, perfumes, unguentos, e sobretudo trigo e escravos. Sua moeda, a coruja, era a moeda de troca internacional da época. Os grandes comerciantes e os templos funcionavam também como banqueiros. Os comerciantes eram os novos ricos e as maiores fortunas da época. Os proprietários de terra ansiavam transladar-se para a cidade de Atenas e casar os descendentes com os descendentes dos comerciantes.

O cidadão grego era do sexo masculino, comprometido com a defesa da cidade em caso de guerra e contribuinte para a sua manutenção. Todo cidadão grego era uma pessoa de posses. Embora fosse ampla a classe dos artífices, como escultores, pintores, arquitetos, teatrólogos, atores, marinheiros, etc., o trabalho braçal era indigno do cidadão grego. Assim, o maior volume de trabalho era realizado pelos estrangeiros, pelos escravos libertos e, sobretudo, pelos escravos.

O cidadão ateniense trabalhava pouco, ganhava bem e dispunha de muito tempo ocioso para ocupar no que lhe aprouvesse. As mulheres viviam reclusas em seus lares, ocupadas com a administração doméstica. As ruas eram espaço para homens, que poucas mulheres, como as heteras, ousavam compartilhar, mulheres essas independentes, de alta elegância e beleza, umas, como Frineia que Atenas inteira afluía às ruas para vê-la passar para o banho na praia, ou Aspásia, o mais importante vulto feminino da História, a bela sofista, mestre da oratória, amante de Sócrates e a mulher por quem Péricles concedeu o divórcio à esposa e preferiu a reclusão do lar à notoriedade da vida pública. Aspásia apreciava reunir em sua casa os mais importantes vultos do período áureo da Grécia, como Sócrates, Péricles, Protágoras e Eurípedes. Alí no amplo espaço das ruas de Atenas, nada mais comum que o relacionamento homossexual dos homens.

As reformas sociais de Sólon e de Clístenes no século VI AEC, o poder naval idealizado por Temístocles e o comércio internacional de Atenas haviam modificado a sociedade, tornado mais igualitárias as condições de vida entre os donos de terra e os citadinos e, consequentemente, o governo e a sociedade mais tolerantes e democráticos. Essas circunstâncias proporcionaram o afluxo dos sofistas para Atenas.

Os sofistas estimularam, diz Will Durant, “vigorosamente a busca do conhecimento, pondo em moda o hábito de pensar. De todos os recantos do mundo grego trouxeram para Atenas novas ideias e desafios, despertando-a para a consciência e maturidade filosóficas.”

O ateniense, como todo o povo grego, era profundamente religioso. Acreditava que o Mundo proviera do deus Caos, brotara de um ovo, gerado na monstruosa cópula de Netuno (o firmamento) e Geia (a terra). Essa cópula gerara inicialmente monstros, que viviam em permanente desordem, briga, guerra. Zeus impôs a ordem e a paz na Terra e distribuiu entre seus irmãos, habitantes do cimo do monte Olimpo, o governo do Cosmos, o Universo por ele organizado, que passou a funcionar segundo a sua Lei.

A vida do cidadão grego, nos seus mínimos detalhes, era governada por essa lei divina, a ordem cósmica imposta por Zeus. Nas mais mínimas minúcias da vida cotidiana, o grego indagava o que lhe estava destinado pela Moira, o Destino, o tecido fiado pelas três irmãs divinas, as Moiras. Tudo lhe esclarecia sobre a lei que Zeus impusera sobre os mínimos instantes de sua vida, o voo das aves, os fenômenos climáticos, os intestinos dos animais, os mínimos acontecimentos diários. Para tudo se consultavam os deuses, que possuíam os seus templos, os seus sacerdotes e os seus oráculos. Os templos de Esculápio, o deus grego da Medicina, eram os consultórios médicos e os hospitais dos gregos. Os templos de Apolo, como aquele de Delfos visitado por Sócrates, era a casa da sabedoria, da reta orientação na vida. Péricles, utilizando as extraordinárias habilidades técnicas de Ictino, Calícrates e especialmente Fídias, construiu para a deusa da sabedoria e da castidade, Atena, protetora da cidade de Atenas, um soberbo templo, o Partenon. Até nas orgias, o grego cultuava um deus, Dionísio.

Na crença do povo ateniense, o legislador grego, nos debates das assembleias, nada mais fazia que tentar desvendar o que sobre o assunto determinava a lei imposta ao Cosmos por Zeus. O povo grego era de uma religião intensamente supersticiosa.

Pode-se, então, imaginar o alcance, o impacto, a revolução que significou aquele pensamento crítico, enunciado por Tales no século VI AEC em Mileto: as coisas da Natureza são meras transformações naturais, da própria Natureza; têm causas naturais; têm sua razão de existir na própria Natureza; é na Natureza que se devem procurar as causas, as razões, a explicação da  existência das coisas.

Essa postura crítica foi desenvolvida e explicitada por Xenófanes de Eleia no final do século VI AEC: “Existe um deus, supremo entre deuses e homens, nada semelhante aos mortais, nem em forma nem em espírito. O seu todo vê, o seu todo pensa, o seu todo ouve. Sem trabalho governa todas as coisas unicamente pelo poder do espírito.” Parmênides afirmou só existe o Ser, o Uno, que se conhece através do raciocínio metódico, tudo mais é ilusão.

“Do ponto de vista histórico, o mundo inteiro começou a tremer quando Protágoras anunciou este simples princípio do humanismo e da relatividade (O homem é a medida de todas as coisas); vieram abaixo todas as verdades estabelecidas e todos os princípios sagrados; o individualismo descobriu uma voz e uma filosofia; e as bases sobrenaturais da ordem social sentiram-se ameaçadas de dissolução.”, afirma Will Durant. O conhecimento é um ato pessoal, individual. É o que cada indivíduo sente e pensa sobre as coisas. E cada indivíduo humano é diferente. Assim, cada indivíduo humano pensa e age a seu modo, diferentemente, tudo utilizando no interesse de uma melhor sobrevivência. Por isso, as diversas opiniões, as diversas profissões, os diversos trabalhos, as diversas religiões, as diversas culturas, os diversos costumes, as diversas leis. Tudo é construção humana.

Essa nova mentalidade tão formidável era que até substituíra a antiga concepção de virtude, de excelência, de perfeição humana, a do exímio guerreiro pela do brilhante orador. O domínio, a conquista, a supremacia não mais residia no poder das armas, já que transplantado fora para o poder da argumentação. A perfeição humana atlética fora substituída pela perfeição humana racional. A conquista não mais se fazia pelas armas, mas pelo convencimento. A supremacia da alma sobre o corpo, da razão sobre os instintos, da sabedoria sobre a superstição.

“O ceticismo de longo alcance incluído nessa famosa declaração poderia ter permanecido teórico e seguro, se Protágoras por um momento deixasse de pensar em aplica-lo à teologia. Num grupo de homens, na casa do impopular livre-pensador Eurípedes, Protágoras leu um tratado cuja primeira sentença abalou Atenas. “Quanto aos deuses, não sei dizer se existem ou não, nem que forma têm...” , continua Will Durant, que passa a descrever a reação da sociedade e do governo de Atenas ao sábio amigo de Aspásia e de Péricles: “A Assembleia ateniense, assustada diante desse prelúdio de mau agouro, baniu Protágoras, ordenou aos atenienses que entregassem aos poderes públicos todas as cópias que porventura possuíssem dos escritos do filósofo, e queimaram-lhe as obras em praça pública. Protágoras fugiu para a Sicília e, narra a história, morreu afogado na travessia.”   

Já bem antes, Péricles fora constrangido a defender do crime de impiedade a sua bela companheira Aspásia, estrangeira de Mileto, sábia sofista, professora de retórica de jovens atenienses evoluídas, em cujas aulas os  maridos progressistas ousavam matricular as próprias esposas. O preço de sua vitória jurídica foi o início de seu desprestígio político.

“Em resumo, os sofistas devem ser classificados entre os mais vitais fatores da história da Grécia... Analisavam tudo, recusavam-se a respeitar as tradições que não resistiam à prova dos sentidos ou à lógica da razão; e colaboraram de modo decisivo no movimento racionalista que, entre as classes intelectuais, destruiu a antiga religião da Hélade.”, afirma Will Durant.

“Píndaro, no início do século V, aceitou piedosamente o oráculo de Delfos; Ésquilo defendeu-o politicamente; Heródoto, por volta de 450, criticou-o timidamente; Tucídides, no fim do século, rejeitou-o abertamente. Eutifro queixou-se    de que, quando na Assembleia ele se referia a oráculos, o povo ria-se dele, como de um velho idiota.”, é como Will Durant descreve a evolução temporal desse embate cultural.

Eurípides, o último dos três grandes teatrólogos gregos, é descrito por  Will Durant como “o filho dos sofistas, o poeta dos séculos das Luzes, o representante da nova geração radical que se ria dos velhos mitos, flertava com o socialismo e clamava por uma ordem social em que houvesse menor exploração do homem pelo homem, da mulher pelo homem e de todos pelo Estado.” E ele enxertava suas ideias revolucionárias nas suas tragédias, a que o povo ateniense afluía hipnotizado pela sua beleza, sem deixar de gritar os seus protestos quando as percebia: “Afirmou alguém a existência dos deuses? Pois esse alguém mentiu. Os deuses não existem.” “Que pensarmos, ó Zeus? – Que governas os homens? Ou que inutilmente se agarram eles à falsa ilusão de uma raça de deuses? Enquanto apenas o Acaso governa entre os mortais todas as coisas?”
Era amigo de Protágoras e de Sócrates. Este não se permitia perder o espetáculo de tragédia alguma do teatrólogo. Juntamente com Sócrates era responsabilizado pela crescente descrença em que se via mergulhada a mocidade ateniense. Em 410 AEC Eurípedes foi processado por impiedade. Absolvido, resolveu aceitar o convite de viver o resto de sua vida em Pela, capital da Macedônia.

O final da vida de Sócrates, pois, o mais ativo, o mais evoluído e o mais convincente dos líderes das novas ideias e da nova cultura, não poderia ser outro senão a condenação por crime de impiedade. Sócrates fora discípulo dos sofistas. Divergia deles, entretanto, porque não abraçava o ceticismo que embasava a relevância que atribuíam à retórica. Sócrates concordava com os sofistas que o conhecimento é um ato humano, um ato de racionalidade. Divergia deles, entretanto, porque entendia que todos os homens usando a racionalidade, de forma correta, com método, como preconizara Parmênides, chegaria à mesma conclusão. Como Protágoras, Sócrates acreditava que o homem é, de fato, a medida de todas as coisas, mas que todos possuímos a mesma medida, a razão. A racionalidade é o que o homem é. É a essência do homem. A racionalidade é o que distingue o homem de todos os outros seres. Por isso, todos podemos chegar à mesma conclusão, à mesma verdade. E a verdade sobre o bem é irresistível. A virtude, a excelência, a perfeição humana é a Verdade, a Sabedoria. O conhecimento, a verdade, a sabedoria é a atividade do homem sábio. O crime, o vício é um erro. A Verdade, a Sabedoria é uma atividade permanente, não é um estado, é a exuberância da excelência da vida, a perfeição, a plenitude da vida humana. A Verdade, a Sabedoria é permanente investigação, incessante descoberta e progresso.

Assim, não é de admirar-se que, como seus amigos Protágoras e Eurípedes e sua amante Aspásia, Sócrates haja sido também acusado de impiedade, e ainda de corromper a mocidade. Três foram os denunciantes, o mais importante e atuante dentre eles foi Ânito, brilhante guerreiro, influente político que, exilado no passado, regressara a Atenas para encontrar seu filho, vítima do vício da bebida, cuja aquisição atribuía à companhia de Sócrates, e disso ameaçara vingar-se. Ânito convencera-se de que Sócrates exercia nefasta influência sobre a moral, a política e a religiosidade da sociedade ateniense e sustentou, segundo Will Durant, a seguinte acusação contra Sócrates: “Sócrates é um inimigo público por não aceitar os deuses reconhecidos pelo Estado e substituí-los por demônios...; além disso é responsável pelo crime de corromper a mocidade.”   Historiadores creem que o julgamento de Sócrates na realidade foi a reação hostil da classe rural da Ática à atividade filosófica de Sócrates que, arrefecendo a prática religiosa supersticiosa do culto às divindades mitológicas gregas, reduzia os seus negócios, os seus lucros e sua riqueza.

Em sua defesa, Sócrates dá a entender que acredita nos deuses, mas afirma que prefere a morte a desistir da prática da filosofia. Foi julgado e condenado à morte. Não tentou fugir, como lhe aconselharam.

Sócrates, sem dúvida, é o mártir da filosofia e da ciência, o mártir do progresso, o mártir da cultura e da civilização.



                                                 









 


domingo, 2 de julho de 2017

385.O Princípio Básico da Sociedade


O homem primitivo era certamente sociável, já que pegadas de três milhões e setecentos mil anos, comprovam a existência de três ancestrais do Homem Moderno, dois adultos e uma criança, andando juntos de mãos dadas.  O Homem Moderno, surgido há uns quinhentos mil anos na África, fabricava artefatos artísticos (desenhava, pintava, fabricava joias e estatuetas) e se comunicava pela fala de maneira tosca.

Ao longo do tempo, o Homo Sapiens sofreu modificações físicas e, sobretudo, comportamentais. Ele tornou-se principalmente mais sociável. Criou as habitações, os povoados, as aldeias, as cidades e os impérios. Tudo isso foi possível, porque aprimorou a comunicação e a sociabilidade. Aperfeiçoou a linguagem. Criou a escrita e até a comunicação mecânica, eletromagnética e eletrônica.

A sociedade iniciou-se sob a atração sexual, biológica e orgânica da sensação de bem-estar e da necessidade de sustento alimentar e proteção. Foi o matriarcado primitivo. Este foi substituído pela sociedade amalgamada pela força, a sociedade que se foi aprimorando no transcurso dos tempos, e Nicolau Maquiavel, já bem próximo de nós, analisou existente ainda no século XV EC.

A história registra surto de uma nova sociedade, na Grécia, no último milênio antes da Era Cristã, que somente veio a tomar impulso, passados os primeiros mil e duzentos anos da Era Cristã, com paulatino progresso da democratização do poder. No início do século XVIII da Era Cristã, Luís XIV ainda podia jactar-se de que L’État c’est moi, o Estado sou eu!

Somente no final desse século XVIII surgiu a primeira nação, tornada independente pela força, mas organizada e fundada pela simples convergência da vontade livre de seus cidadãos: os Estados Unidos da América. Logo, a seguir, a Revolução Francesa tornava-se o centro irradiador da expansão da concepção dessa nova sociedade, não mais ancorada na força, mas no consenso. A sociedade não mais é a convivência do opressor com seus oprimidos. Doravante, ela é a convivência de iguais. Ela é livremente procurada, porque ela é o ambiente cultural onde unicamente se pode concluir a realização do projeto individual da vida de cada parceiro. Todos os parceiros são politicamente iguais. Ninguém manda, ninguém obedece. Ninguém nasce para mandar, ninguém nasce para obedecer. Ninguém é dono de tudo, mas ninguém nasce sem nada e apenas recebe o que o dono de tudo lhe doa. Todos são igualmente livres para se realizarem, para viver plenamente sua vida particular (a Vida Plena e Feliz, de Martin Seligman).

Esse ideal, essa sociedade de homens livres, do consenso, da convivência, de entendimento pleno, de paz e prosperidade, só pode ser concretizada, realizada, se todos agirem em cada instante de acordo com a concordância de todos. Então, essa sociedade se baseia numa submissão, é verdade. Mas, essa submissão é de todos à vontade unânime de todos, que, enfim, por isso mesmo, é a própria vontade do indivíduo que obedece. Eu me submeto à minha própria lei. Eu me dirijo. Eu sou livre, autônomo, porque não me  submeto a nenhuma outra pessoa, mas unicamente à norma, à lei que eu próprio criei.

A sociedade passou a ser ancorada não mais na força, mas no consenso, na concordância, na norma, na lei. Mas, qual é essa lei, essa norma básica, essa âncora que sustenta a sociedade, esse grude que todos une, essa norma de concordância, que realiza a utopia, o inacreditável – que mescla o individual com coletivo, a liberdade com a ordem, o egoísmo com o altruísmo, a utopia com a realidade?

Entendo que Robert Nozick, advogando o Estado Mínimo, julga que o nível básico normativo se reduz ao egoísmo puro: “é-me lícito fazer e não fazer, desde que não prejudique aos outros (não lhes retire nenhum valor material, intelectual ou moral).” Essa é a orientação sociológica básica do liberalismo econômico, do Estado Democrático Liberal. Esta foi a orientação predominante na ciência econômica, em seus primórdios, a economia do livre mercado, que foi revigorada nas décadas de 70 e 80 do século passado.

Robert Nozick advogou o Estado Mínimo, porque discordava de John Rawls que entendia que a sociedade deve ancorar-se nas motivações concretas totais que unem as pessoas, como descrevemos acima: um egoísmo concreto, realístico, que, à medida que a pessoa se constrói, constrói também, concomitantemente, a sociedade e interfere até na transformação da natureza, o meio ambiente natural onde se vive, como confirma a Ciência – a Biologia, a Arqueologia e a História. Essa norma fundamental da sociedade, esse grude social, poder-se-ia, penso, expressar-se da seguinte forma: “É lícito fazer e não fazer o que bem aprouver, desde que isso contribua também  para o aumento do bem-estar dos outros, nunca, porém, quando isso lhes prejudique o bem-estar.” Essa é a orientação reativa moderadamente liberal  aos movimentos socialistas, anarquistas e comunistas do século XIX, que teve origem nas políticas sociais de Bismarck e nas leis dos pobres inglesas, na orientação trabalhista adotada pela OIT e, sobretudo, o Plano Beveridge do início da década de 40 do século passado. Esta norma, penso, é, de fato, a âncora da sociedade, o grude do Estado Democrático Liberal do Bem-Estar Social. O Estado que, de fato, existe em grande parte, do Mundo Ocidental, eivado de muitos ingredientes perniciosos, infelizmente, em determinados países, e que nova onda de liberalismo tenta destruir, desconsiderando o grande número de países, cujos cidadãos usufruem os benefícios proporcionados por essa maravilhosa construção social.

Nesta segunda metade do século XX e início do século XXI estamos vivendo o embate entre essas duas visões e construções da sociedade e da economia. Os proponentes do Estado Mínimo reforçam o seu argumento, reafirmando o princípio básico da economia de mercado: a liberdade econômica é chave da riqueza. A riqueza tem suas próprias leis. Ninguém se enriquece com ética. Até Adam Smith temperava essa norma. A doutrina econômica prevalente na atualidade recomenda medidas corretivas e a História relata o rosário de insucesso dessa empreitada do liberalismo desenfreado (“Oito Séculos de Delírios Financeiros”). Neste início do século, presidentes de grandes potências perceberam que se havia confiado em demasia na autocontrole do mercado.

A ciência diz que o homem se constrói e constrói a sociedade e o Estado. Por que somente a Economia o homem não constrói? Por que a racionalidade, a ordem, alçou o Homo Sapiens, do estágio primitivo, quando nem propriamente falava, às culminâncias do Homo Sapiens moderno (habitante extraterrestre, navegante da atmosfera, condutor de naves interplanetárias e investigador do intra-atômico e da origem do cosmos, artista refinado, construtor de uma existência "sem dor no corpo e sem angústia na alma”, aspirante a uma vida sem trabalho e até imortal – distância tão estupenda que, diz-se, até supera aquela que o afasta dos próprios animais racionais! –, e não pode construir a economia?

Cabe a cada um de nós fazer a sua opção. Eu já fiz a minha. Estou com a Ciência e os fatos relatados pela História: o Homem se constrói e constrói a sociedade e constrói até a Economia.





                                
                                              





sexta-feira, 23 de junho de 2017

384. Só Sei Que Nada Sei


O Sócrates que Platão, seu discípulo, nos descreve é um grego religioso. Ele fez uma peregrinação ao templo de Apolo - o deus grego da luz, da inteligência, da beleza, da perfeição, da harmonia, do equilíbrio e da sabedoria -, em Delfos. Lá o daimon de Sócrates, o deus protetor que os gregos acreditavam habitar no interior de cada pessoa, revelou-lhe que a mensagem que lhe era dirigida por Apolo através da inscrição no pórtico do templo, era que somente o deus é sábio, o homem é ignorante, mas que o deus colocara no interior do homem a razão, a faculdade de pesquisar a Verdade. Assim, o único homem sábio era Sócrates, porque era o único homem que estava convencido de que o homem nada sabe, mas, simultaneamente, sabia que o ser humano consiste exatamente nisto: viver a sua racionalidade, isto é, a permanente busca da verdade, da sabedoria. E esta era a missão que Apolo lhe confiara: a pesquisa da verdade e estimular nos outros homens a vontade de conhecer a Verdade, de alcançar a sabedoria.

Sócrates, pois, entendia que o homem é um ser racional, dotado da razão, de conhecer por que as coisas existem e o que elas são. E, por isso, “a verdade e o conhecimento são inatos em nós”, explica Mariela Chaui. Entendia que essa razão é a mesma em cada indivíduo humano. Concluía, então, que todos os homens podiam chegar ao mesmo conhecimento, à mesma verdade, desde que usassem a razão. Assim, a verdade está no íntimo de cada pessoa: conhece-te a ti mesmo. É através da introspecção, do raciocínio, do uso da razão que o homem atinge a Verdade: a verdade é uma conquista pessoal, não se ensina, não se transmite; a sabedoria não é um estado de ser, mas um permanente exercício da razão. Marilena Chaui explica essa ideia de forma muito clara: “Isso não  significa que a verdade não exista, e sim que deve sempre ser procurada e que sempre será maior do que nós.” E ressalta a novidade do pensamento socrático: “Conhecer não é senão encontrar procedimentos (como a dialética exercitada na ironia e na maiêutica) capazes de despertá-las (as ideias das coisas), como se saíssemos de um sono profundo. Essa afirmação tem um significado decisivo na história da filosofia, pois com ela é afirmado, pela primeira vez, o poder do pensamento para encontrar, por si mesmo e em si mesmo, a verdade... (Heráclito e Parmênides) também afirmaram que somente o pensamento conhece o verdadeiro, mas este encontra-se na phísis ou no ser, enquanto para Sócrates, o verdadeiro se encontra em nós, no interior da nossa alma.”

Como explica Marilena Chaui, o indivíduo humano na vida cotidiana convive com uma multiplicidade de coisas, colhe uma multiplicidade de aparências opostas, experimenta uma multiplicidade de percepções divergentes, defronta-se com uma multiplicidade de opiniões contrárias. Através da razão corretamente utilizada, o homem transporta-se dessa multiplicidade até à unidade da ideia da coisa, do conceito da coisa, até a sua essência (segrega as propriedades comuns a todos os seres singulares de uma determinada espécie). Esse trabalho é o conhecimento, uma atividade própria do homem, que nenhum outro ser terreno apresenta, que o distingue de todas as outras coisas existentes. A racionalidade é, pois, segundo Sócrates, o que o homem de fato é, a sua essência. Eis a  argumentação utilizada por Sócrates, segundo Platão em Alcebíades I, para provar o que o homem é, a sua essência:
- o homem é algo que utiliza um corpo como instrumento;
- esse algo é a alma, isto é, aquela parte interior do homem que é dotada da capacidade de conhecer as coisas, o que a coisa é, a essência das coisas, dotada da inteligência, da racionalidade;
- a racionalidade é o que distingue o homem de todos os outros seres da Natureza: o homem é um ser racional, o homem é um animal racional. Essa é a premissa básica do pensamento socrático.

Esse raciocínio de Sócrates demonstra toda a sua herança filosófica. Ele procura explicar a realidade humana mediante a observação do homem tal qual existe na Natureza e mediante a observação de sua própria pessoa. É a sua herança dos filósofos Naturalistas precedentes. Esse raciocínio socrático foca na observação do homem, e esta postura filosófica já é uma herança dos seus mestres sofistas.

O pensamento socrático avança para além dessa premissa básica. A racionalidade humana não é um estado de conhecimento, o homem não possui o conhecimento das coisas, o homem adquire o conhecimento das coisas mediante o raciocínio, a atividade racional, o exercício da razão. O conhecimento é uma atividade permanente do homem, a sua atividade por excelência. A verdade humana sempre pode ser ampliada, aprimorada, está em permanente aperfeiçoamento.

Sócrates avança ainda mais: é através da racionalidade, pois, que o homem adquire a Verdade, a racionalidade que está em todos os homens; logo todos os homens, podem adquirir a mesma Verdade; a concordância humana é possível, o entendimento humano é possível; o diálogo humano não é uma competição e sim uma cooperação; o ensino não é uma transmissão de conhecimento, mas sim um auxílio incitativo e facilitador; e, sobretudo, a racionalidade confere ao homem a capacidade de conhecer o Bem: o Bem do Homem é a Verdade. O Homem é capaz de conhecer e determinar os procedimentos, as normas, as ações que o tornam feliz. O homem honesto é o homem sábio: a honestidade, a virtude, a excelência é a Verdade, a Sabedoria. O homem desonesto é o homem ignorante: a desonestidade, o vício, a ignomínia é o Erro. O homem sábio conhece o Bem. E quem conhece o Bem não pode deixar de praticar o Bem. O homem sábio é o aristocrata.

O homem racional é autônomo. O homem é autônomo na medida em que age racionalmente. O homem racional conhece e faz suas próprias normas de vida. O homem constrói suas leis e sua sociedade. A virtude, a moral, a excelência, a aristocracia é a Verdade, a Sabedoria. A Sabedoria é a Vida racional, a vida virtuosa, a vida honesta, a moralidade. A Sabedoria não é um estado, é a própria vida até o seu último instante, a morte, é a vida do aristocrata.

Finalmente, Sócrates entendia que o raciocínio lógico é um conhecimento metódico, indutivo, baseado na observação, como já explicamos acima. Ele usava o método dialético, o diálogo socrático, que constava de duas partes: a ironia (refutação) onde a alma se purifica do falso saber (o indivíduo se convence de que não tem a verdade, mas apenas preconceito, opinião falsa) e a maiêutica onde emerge a verdade que se acha no íntimo do indivíduo.



segunda-feira, 12 de junho de 2017

383.Conhece-te a ti Mesmo


Protágoras viveu no século V AEC, o século de Péricles, cerca de 70 anos. Não era ateniense. Nasceu na cidade grega de Abdera, na época das guerras contra os persas, e faleceu anos antes do armistício de Atenas com Esparta. Era um sofista, professor de retórica. Era um profissional da oratória, profissão, naqueles tempos, muito requisitada pelos cidadãos atenienses.

Com efeito, como explica Marilena Chaui, apoiada em estudiosos da sociedade ateniense naqueles tempos, a transformação experimentada por Atenas, naqueles três séculos decorridos entre Tales e Protágoras, fora tão profunda que até substituíra o ideal do guerreiro belo e corajoso pelo do bom orador. A excelência não mais consistia na coragem, mas no poder de convencer. A aristocracia não mais era a plutocrata, mas a meritocrata. O aristocrata não mais nascia, a aristocracia não mais herança era, não mais terra era. Agora, a aristocracia passara a ser adquirida, o poder de influenciar na sociedade, o poder de falar, de pensar, de comunicar-se, de argumentar, de debater, de convencer, de persuadir. Agora, todos nasciam iguais. As diferenças, a excelência, passaram a ser adquiridas.

A retórica, a oratória, pois, tornara-se preciosa mercadoria na cidade de Atenas, para onde, assim, convergiam os sofistas de todo Mundo conhecido, os professores da arte de argumentar, atraídos pela vida social da cidade e pela remuneração da profissão. A atenção dos filósofos, portanto, ampliou-se para além da explicação da Natureza. Alargou-se para abarcar e focar principalmente a palavra, a argumentação, o discurso, o pensamento, o homem, a lei e a sociedade. Os sofistas, afirmam Reale e Antiseri, interessavam-se pela cultura (a linguagem, a retórica, a arte, a educação, a política, a ética e a religião).

Os sofistas foram  tocados profundamente pela constatação das múltiplas respostas apresentadas pelos filósofos Naturalistas à indagação do princípio, da natureza das coisas. Percebiam a diversidade de costumes e leis existentes nas cidades que percorriam e povos que conheciam, no decurso da vida de andarilhos do magistério, que adotavam. Entendiam que cada pessoa tinha sua percepção própria das coisas e sua maneira própria de conduzir-se na vida. Professavam, pois, a doutrina do Relativismo: inexiste Verdade absoluta, só existem opiniões, mais ou menos verossímeis, mais ou menos oportunas, convenientes e úteis.

O mais ilustre de todos os sofistas foi Protágoras. Nasceu em Abdera. Viajou por quase todas as cidades da Grécia. Lecionou em Atenas. Foi amigo de Péricles. Evadiu-se de Atenas, após condenação por impiedade e ateísmo. Morreu em naufrágio numa viagem para a Sicília. Eis como Platão, em Tieto, expõe o pensamento de Protágoras: “...a verdade é como escrevi: cada um de nós, de fato, é medida das coisas que existem e das que não existem... ao doente parece amargo o que come, e assim também é para ele, enquanto para quem está sadio é, e parece o contrário.” Não existe, portanto, o princípio, a natureza, que os Naturalistas investigavam. “O ser e o não-ser dependem inteiramente de nossas sensações, percepções, opiniões, ideias e ações... As coisas são ou não são conforme os humanos as façam ser ou não ser, ou digam que elas são ou não, segundo o nomos (a norma)”, explica Marilena Chaui. Medir é comparar uma coisa com outra, tomada como padrão, referência. O conhecimento humano é um juízo, uma comparação, um ato de medir: é, não é. Conhecer, pois, é julgar (comparar com uma norma, medir).  E qual é, no juízo humano, o ponto de referência? A utilidade, a conveniência, o interesse bem como as percepções e sensações humanas, o homem: o homem é a medida de todas as coisas.   E Marilena Chaui conclui: “Assim, o homem é medida de todas coisas... significa que é por ação humana que as coisas existem tais como são e que outras não existem, porque os homens convencionaram, por meio de leis, não admiti-las.”

Sem a natureza dos filósofos naturalistas, só existe o puro devir. Esse devir abarca inclusive o próprio homem (aquele o objeto conhecido e este o  sujeito cognoscente). Logo, os princípios de identidade e de contradição carecem de base de validação: o que é pode não ser. Cada um, pois, tem sua verdade, mesmo que suas opiniões sejam opostas. E a mestra paulista encerra sua dissertação sobre Protágoras: “As ideias gerais sobre as coisas (as qualidades opostas, a justiça, o bem, o útil, as leis, os deuses, as ciências...) são convenções nascidas de um consenso entre os homens para utilidade da vida em comum e de cada um. Não há saber universal e necessário sobre as coisas – não há a verdade, apenas opiniões verdadeiras em movimento e as técnicas nascidas da experiência e da observação para uso e ação dos homens. A arte retórica e arte política devem persuadir-nos de quais são as melhores verdades e as melhores técnicas para cada cidade.”

Essa era, pois, a atividade do sofista, ensinar a argumentar, a tornar um pensamento verossímil, uma opinião mais verossímil que outra, a transformar uma opinião em verdade, a fazer atraente ou repulsiva uma ideia, a convencer, a persuadir, a dominar, subjugar a mente alheia, do ouvinte, do auditório: dominar o povo, comandar a sociedade pela oratória. Essa ambiguidade de pensamento bem como a mercantilização do saber alimentaram, com o decorrer do tempo, grande oposição aos sofistas no seio da sociedade ateniense.

Contemporâneo de Protágoras foi Górgias, sofista que professava o nihilismo. Viveu mais de cem anos. Contrapôs-se a Parmênides, afirmando, segundo Sexto Empírico: “nada existe, se existisse não seria inteligível, e se inteligível fosse não seria comunicável aos outros.” Nada existe, já que o ser é algo e o não-ser é nada, logo o ser é algo e nada é, o ser é algo que nada é. Se o ser é nada, entender o ser é nada entender, logo o ser é incompreensível. O conhecimento transmite-se pela palavra, que é mero som, logo o que é transmitido não é o pensamento, muito menos o ser, mas apenas sons. O discurso não coloca o ser na mente do ouvinte, mas apenas sons nos seus ouvidos. Protágoras entendia que o discurso, o debate, conduzia ao entendimento, ao consenso, que era, no final das contas, uma verdade convencionada. Já Górgias entendia que a retórica persuade incitando os sentimentos, uma espécie de encantamento, de magia, de poder divino, conduzindo o indivíduo à semelhança da força do Destino, no final das contas, para uma crença, uma fé.

Sofistas houve que pensavam que os deuses foram criados pelos políticos para dominarem o povo, outros que a Justiça foi criação dos poderosos, outros que é justo que os fracos sejam dominados pelos mais fortes. Em Hípias,   que valorizava o estudo da natureza porque lhe parecia  contribuir para melhorar a conduta humana, mediante a lei natural  que congrega os homens, enquanto a lei positiva os desagrega, deparamo-nos com o germe de pensamento igualitário e cosmopolita. Antifonte, por sua vez, advoga a igualdade natural dos homens.

O século V AEC é também o século de Sócrates, que, é claro, foi discípulo dos sofistas, os notáveis primeiros mestres profissionais da História, os mestres do pensamento livre e democrático, a primeira turma de docentes profissionais da civilização ocidental, da civilização contemporânea, discípulo que abriu divergência com o magistério de seu tempo. Sócrates nada escreveu. E esse fato me parece amplamente coerente com o seu pensamento de que a sabedoria não é um bem que se fabrique, se adquira e se possa transmitir a outras pessoas. O conhecimento é um processo pessoal e interior, uma introspecção inesgotável, um caminhar interior em que cada passo é um encontro interior com a Verdade que, a mesma, se aloja no íntimo de cada pessoa. O mestre, pois, não ensina a Verdade, ele apenas auxilia o discípulo a realizar a atividade que promove o encontro com a Verdade.

Sócrates, pois, ao contrário dos sofistas, entendia que o homem pode alcançar a Verdade, emitir juízos verdadeiros, e que essa Verdade existe em todos os homens, de forma que é possível a concordância universal dos indivíduos humanos, a convivência humana harmoniosa, a sociedade humana. Existem a Verdade, a opinião e o erro.

Sócrates acreditava que nele habitava um daimon, um deus protetor, e que este lhe havia comunicado, peregrino do templo de Apolo Delfo, que a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”, aposta na entrada do templo, continha a missão que Apolo Delfo lhe confiara realizar na vida: conhecer-se a si próprio e fazer que as outras pessoas se conhecessem a si próprias.


A missão divina de Sócrates consistia em saber e difundir que a sabedoria reside na vida racional. Sócrates fincou as bases de racionalidade que sustenta o portentoso arcabouço da cultura e da civilização ocidental e da contemporânea.

sábado, 27 de maio de 2017

382. A Pedido, Jesus é Deus!

Pessoa muito querida recebeu um vídeo de recente entrevista de Augusto Cury com a apresentadora Maria Braga, onde ele declara a recuperação da fé na divindade de Jesus Cristo, em razão de sua pesquisa científica da vida de Jesus, ao longo de muitos dos seus últimos anos. Este meu texto nada mais é que minha desprentensiosa manifestação a respeito, em resposta a uma solicitação de apreciação do conteúdo desse vídeo.

Augusto Cury ocupa lugar no panteão dos literatos mundiais, cujo sucesso se constata com a milionária vendagem de sua maravilhosa obra. É psiquiatra de nome nacional. Sua obra de análise da personalidade de Jesus merece o maior respeito. Claro, pois, que não possuo credenciais para fazer crítica respeitável sobre o vídeo. Sou, todavia, pessoa humana e, como tal, posso formar opinião sobre o que acabo de ouvir nesse vídeo e naturalmente a formo. Essa opinião racional é a minha luz pessoal sobre a matéria, é a que naturalmente me orienta na vida a esse respeito e sob a influência da qual se embasa a responsabilidade pela minha conduta nesse assunto.

Cury afirma que passou no crivo de sua análise psicológica as vidas e personalidades de Jesus e de seus discípulos (Pedro, João, Tiago, Mateus, Judas etc.). Mateus não foi um dos apóstolos de Jesus, embora isso não tenha importância para a ilustração do caso, porque se admite que haja sido discípulo.

O importante é que CURY afirma que estudou a vida REAL de Jesus, opondo-se ao que afirma a CIÊNCIA: A VIDA REAL DE JESUS É DESCONHECIDA. Sabe-se apenas que ele existiu e morreu crucificado na época em que Pôncio Pilatos era governador romano da Palestina. Tudo mais é mito, fabricação do imaginário religioso de multidão de pessoas, ignorantes umas, eruditas outras, conhecidas dele algumas, nada relacionadas pessoalmente com ele  uma multidão, ao longo de um século. Entre a abalizada OPINIÃO CIENTÍFICA de Cury e a VERDADE CIENTÍFICA DA HUMANIDADE, fico com a Humanidade: Cury estudou um Mito.

Para entender-se a força de um Mito, basta atestar o que se passa aos nossos olhos. Para os petistas crentes na genialidade de Lula ele é o mais genial líder político já visto na Terra, SEM NEM SEQUER NECESSITAR DE ESTUDO, inclusive A PESSOA MAIS PROBA ATUALMENTE VIVA NA TERRA, e não adianta apresentar MUITOS VÍDEOS ONDE LULA EXIBE A MAIS PATENTE FALTA DE CARÁTER. E este fanatismo é apenas político, não é o fanatismo religioso dos primeiros cristãos que mataram mais cristãos do que os imperadores romanos.

Entendo que, de fato, Jesus tenha sido extraordinário personagem e que tenha influenciado sobremaneira três pessoas, que, com ele, são os responsáveis pela existência e enorme influência que o Cristianismo primitivo teve sobre o Imperador Constantino, o responsável, este sim, pelo grande sucesso do Cristianismo: Maria Madalena, Pedro e, sobretudo, Paulo.

O Cristianismo é paulinismo. Os quatro Evangelhos apresentam suposta   autoria exatamente para conferir autoridade de procedência ocular e familiar da história, embora se admita que três deles tenham influência da mesma origem que o de Marcos, o mais primitivo, a saber,  as suas duas vertentes,  o pré-marcos, por sinal resumidíssimo, e outra cujo texto é hoje totalmente desconhecido. Os quatro evangelhos foram escritos sob a influência da crença de São Paulo. E Paulo de Tarso NÃO FOI DISCÍPULO DE JESUS, NEM TALVEZ O HAJA SEQUER VISTO EM VIDA.

TUDO O QUE PAULO DE TARSO DIZ TER APRENDIDO COM JESUS, DIZ TER APRENDIDO POR CONTATO COM JESUS RESSUSCITADO, isto é, JESUS TRANSMITIU-LHE DEPOIS DE MORTO EM APARIÇÕES, POR CONTATO  MÍSTICO, como naquele primeiro encontro na estrada para Damasco!

Esta opinião já vai longa. Penso que é satisfatória como esclarecedora do que penso: fico com a HUMANIDADE, com a CIÊNCIA. Os quatro evangelhos são narração de crentes, como Paulo de Tarso, judeu e cidadão romano, que criam que Jesus, mais que o Messias prometido aos israelitas, era um ser divino, à moda dos deuses gregos e romanos, que promoveu a catarse da Humanidade perante a divindade suprema, o Deus Pai, a redimiu do pecado,  a causa dos sofrimentos e da morte. O Homem imortal agora passaria a viver SEM DOR NO CORPO E ANGÚSTIA NA ALMA, a felicidade tal qual entendia Epicuro e as pessoas a entendem.

Essa pregação de Paulo de Tarso, a igreja UNIVERSAL, a do Mundo então conhecido, suplantou a própria igreja primitiva de Jerusalém, a igreja da MÃE E DOS IRMÃOS DE JESUS, a crença no Jesus, o Messias do povo israelense.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

381.O Homem é a Medida de Todas as Coisas


Tales, há dois mil e oitocentos anos, fixou novo rumo para o destino da Humanidade. A explicação da Natureza, do ambiente em que vivemos, incluindo nós mesmos, não se obtém através de um relato imaginoso de ações perpetradas por entes superiores. O conhecimento da Natureza se adquire observando a Natureza e identificando as razões por que ela se comporta da forma como se comporta.

Ao longo de duzentos anos, os filósofos gregos se concentraram na análise da contingência dos seres da Natureza: nada se cria, nada se aniquila, tudo se transforma. Esse princípio da transformação, induzido por Tales, provocou um debate ao longo de duzentos anos.

O debate surgiu de uma concordância básica: a transformação só é inteligível, se houver algo permanente, isto é, os seres principiam como algo no qual eles acabam e, portanto, é aquilo que eles de fato são.

Assim, os seres têm um princípio e esse princípio é o que eles, de fato, são: o princípio é a própria Natureza. Identificar o princípio das coisas, pois, é identificar a própria Natureza, o que, de fato, a coisa é.

Naqueles tempos, os gregos pensavam que a Natureza era constituída de quatro elementos: a água, a terra, o ar e o fogo. Tales entendeu que o princípio e, portanto, a Natureza, é a água. Tudo é água. Tudo vem da água e tudo termina em água. Anaxímenes pensou que o princípio é o ar, ar que é movimento, e tudo põe em movimento e dá vida. O ar que dá vida aos animais e aos homens e que esses seres exalam na hora da morte. O  próprio Mundo possui uma alma, que o põe em movimento. Anaximandro, discípulo de Tales e mestre de Anaxímenes, adotou teoria ainda mais sutil, antecipando até mesmo o aspecto premunitório de soluções científicas modernas, puramente racional, dedutivo – a Razão, a faculdade de conhecer, de captar as causas das coisas, dos fenômenos, que os sentidos não podem atingir. Anaximandro entendia que até os quatro elementos tinham como princípio o ápeiron, isto é, provinham de algo infinito, quantitativa e qualitativamente infinito. O princípio, a Natureza é o ápeiron. Tudo é o ápeiron. Pitágoras, matemático, adotou o número como princípio e natureza, tudo é número, isto é, a transformação se processa sob a influência dos elementos do número, o ilimitado e limitante, de modo que tudo se faz num determinado tempo e numa determinada quantidade, promovendo a diversidade das coisas e a harmonia dos seres e do Cosmo: tudo é número.
Três desses filósofos, denominados Naturalistas, merecem destaque. Heráclito, o obscuro, afirmou que o princípio, a Natureza é o devir, o transformar-se: “Tudo flui”, sou o que sou neste instante, não mais sou o que fui, nem ainda sou o que serei, sou como um rio é: as águas escorrem, se renovam a cada instante. A existência é luta de contrários (o úmido contra o seco, o quente contra o frio, a fome contra a saciedade, o crime contra a justiça, etc.), que produz a diversidade das coisas, e, ao final, a harmonia dos contrários, a harmonia do todo: as coisas se encaixam, se completam.

Segundo Parmênides só existe o ser, porque o ser não pode provir do nada, não pode ser nada, nem pode deixar de ser. O ser é eterno, imutável e uno. A Natureza é o Ser. Esse ambiente que nos circunda, com essa variedade de seres mutáveis, é aparência, ilusão, inexiste! Parmênides era um racionalista extremado, centrado nos princípios da identidade e da não-contradição, extraindo de tais premissas todas as consequências, identificando o racional com real.

E, por fim, Demócrito, segundo o qual, existem os átomos, o nada ou vácuo, e o movimento. O átomo, como diz o nome, é indivisível, indestrutível, incriado, invisível de tão pequeno, eterno e dotado de movimento. Os átomos movimentam-se no vácuo, agregando-se e segregando-se, produzindo a diversidade dos seres e produzindo o fenômeno da transformação. A razão de Demócrito, sem lente, sem telescópio, sem radar, sem chips, captou, à sua maneira, o invisível, o átomo da Física Quântica! E, pasme-se, o átomo, sabemos hoje, existe. Segundo Einstein, pasme-se, ele é energia condensada! Mas, Demócrito, como pode EXISTIR o NADA? Porque, sem o Nada e sem o movimento, não se explica o ser contingente (o ser que tem começo e fim, o ser que se transforma), isto é, os seres que nos circundam, que formam a Natureza, exatamente, o ser cuja existência queremos entender, explicar, encontrar a razão de existir!

Duzentos anos decorridos, a Grécia já não era a mesma. Limitada ao mar Egeu, na época de Tales, século VII AEC Expandira-se para o Oeste pelas margens sul e norte do Mar Mediterrâneo. No século V AEC já possuía cidades-estado  nas margens sul e norte do mar Mediterrâneo, na Sicília, no sul da Itália. A economia, antes praticamente agrícola e citadina, expandira-se e diversificara-se. Era agora agrícola, artesanal, comercial, citadina e intercitadina. A vida social não se restringia mais apenas às festas religiosas e à prática da ginástica com os jogos olímpicos e a formação do cidadão guerreiro, o defensor da cidade. A cultura grega expandira-se para além da poesia, abarcava agora o teatro, a oratória, o Direito e a Filosofia. A sociedade não mais constava apenas de duas classes de cidadãos os eupátridas, os bem nascidos, os latifundiários, os ricos, e os pobres (pequenos agricultores, rendeiros e artesãos), já que, duzentos anos passados, existiam os comerciantes, os marinheiros, os professores de retórica, os pintores, os escultores, os arquitetos, os filósofos, os médicos, marinheiros, os artesãos, os artífices, os mineiros etc. A própria organização política de Atenas sofrera profunda modificação. Na época de Tales, Atenas era governada pelo Basileu, uma espécie de rei, nascido numa família eupátrida, sob o controle do Areópago (conselho de 500 eupátridas). Foi, em seguida, governada pelos Arcontes, que eram eupátridas. Passou pelas reformas legislativas de Dracon e de Solon. Seguiram-se os governos dos Tiranos. Duzentos anos decorridos, Atenas era uma democracia, cuja população alcançava 400.000 mil pessoas. 360.000 pessoas não eram cidadãos (200.000 eram escravos, 60.000 eram mulheres e crianças, e 100.000 eram metecos, isto é, artesãos estrangeiros) e apenas 40.000 cidadãos, isto é, homens, nascidos na cidade-estado de Atenas, que pagavam tributo e defendiam a cidade na guerra, e. por isso, tinham o direito de, em conjunto, através do debate, fazer as leis da cidade e escolher quem governá-la segundo tais leis e quem julgar os criminosos na conformidade de tais leis. O ostracismo, expulsão da cidade, era a pena para o homem público ímprobo.

Como se percebe, a cidade-estado grega, a cidade de Atenas, era muito bem diferente das sociedades que os gregos encontravam pelo resto do Mundo então conhecido por eles no norte da África e no sudoeste da Europa. Os atenienses, os gregos, em geral, nutriam orgulho da sociedade que haviam conseguido organizar: os gregos eram civilizados, os demais povos eram bárbaros, selvagens. Mais, eles percebiam que haviam progredido, que sua sociedade havia se transformado para melhor. E os filósofos tomaram conhecimento, ademais, que a razão pode levar a opiniões diferentes sobre o mesmo assunto, já que se defrontavam com muitas e variadas explicações da mesma matéria, a Natureza, ao longo desses duzentos anos.

Entendemos, assim, o segundo grande passo, lento passo de dois séculos, dado pela Humanidade nesse maravilhoso processo do conhecimento. O objeto da pesquisa transportou-se da Natureza para o próprio Homem. Nisso exatamente reside a importância da contribuição dos filósofos gregos, denominados Sofistas (sábios): o objeto da pesquisa deles era o Homem. Melhor, os sábios passaram a entender que a discrepância entre os filósofos antecessores brotava do fato de que eles não atentavam para o fato de que o conhecimento é um ato humano e, portanto, era, sobretudo, no Homem que se localizava o problema do conhecimento, e, assim, era no Homem que se teria de encontrar a resposta explicativa da Natureza, a razão de ser das coisas.

Esse é exatamente o significado do histórico pronunciamento de Protágoras, o maior dos três grandes filósofos sofistas: “O homem é a medida de todas as coisas.”

                                              

segunda-feira, 15 de maio de 2017

380.O Berço da Ciência


Marilena Chaui ensina que os gregos usavam a palavra lego para significar reunir, juntar. Assim, usavam a palavra logos para significar palavra, pensamento e ser. Esse ensinamento me oferece a melhor chave para abrir a porta para o meu entendimento de como se deu o primeiro passo da Humanidade na direção da aquisição da Ciência.

Falar é juntar sons, palavras. Pensar é juntar conceitos, juízos, raciocínios. Fazer, criar objetos é juntar coisas. Destruir objetos é separar partes do objeto. Se bem observarmos as coisas ao nosso redor, nada surge subitamente inteiro a nossa frente e nada desaparece subitamente inteiro diante de nós.

Essa foi a grandiosa intuição de Tales, em Mileto, cidade grega, hoje turca, há dois mil e oitocentos anos: nada se cria, nada perece, tudo se transforma. O gelo não brota repentinamente e desaparece repentinamente; o gelo se transforma em água, e a água se transforma em ar, e o ar se transforma em nuvem, e a nuvem se transforma em água; o metal se transforma em líquido e o líquido reverte a metal; a semente se transforma em planta, a planta se transforma em flores, as flores se transformam em frutos, os frutos se transformam em sementes; o dia se transforma em noite e a noite se transforma em dia.

Tales captou, induziu, observando a natureza, o princípio da transformação: tudo se transforma. Ele tem, agora, pois, um juízo - tudo se transforma – obtido pela observação da natureza. A esse juízo, ele, então, junta outro, obtido de sua razão, de sua mente. É a hipótese, isto é, algo que torne a realidade racional, uma harmoniosa imagem conceitual da realidade, uma reunião de juízos tal que um não se oponha ao outro, uma reunião de conceitos tal que um não se oponha ao outro. A realidade deve ser harmoniosa, as partes da realidade devem encaixar-se. A imagem da realidade deve ser harmoniosa, os juízos e conceitos devem igualmente encaixar-se.

O conhecimento científico é, pois, um raciocínio, isto é, o esforço da mente por tornar a realidade racional, em harmonia com a mente humana, com a lei de harmonia que rege a aglutinação dos juízos e dos conceitos humanos. A ciência é a busca da razão das coisas. É o conhecimento justificado. É conhecimento indutivo, baseado na experimentação e por ela controlado, e conhecimento dedutivo, tudo comprovado pela experimentação. É a tentativa de encontrar na realidade a mesma harmonia racional da mente. O conhecimento científico parte do pressuposto de que a Natureza está igualmente dotada da harmonia racional.


Naquele dia, em que o sábio grego Tales passou a pesquisar o princípio de onde tudo provém, que é tudo porque é aquilo de que tudo é feito, e é aquilo em que tudo acaba, ele deu o primeiro passo da Humanidade na longa estrada do conhecimento filosófico e científico que é uma das características da atual civilização ocidental e que já se estendeu para o planeta Terra inteiro.